Como o Itaú Unibanco teve a maior lucratividade do século para um banco privado
OU…
“Para quem acha que a culpa dos juros autos é do BACEN”
O Itaú Unibanco vem registrando resultados recordes no setor financeiro brasileiro, com um lucro líquido anual que alcançou mais de R$ 46,8 bilhões em 2025, consolidando-se como o maior entre os bancos do país em praticamente toda a existência dos mesmos, “evidenciando a eficácia de sua estratégia de gestão e expansão de receitas.” (Itaú Unibanco)
Embora esse desempenho seja frequentemente explicado pela eficiência operacional e pela carteira de crédito, uma dimensão essencial que conecta esse lucro recorde ao governo brasileiro é a exposição substancial do banco à dívida pública do país.
(Stock Titan)
A dívida pública federal brasileira — especialmente a Dívida Pública Mobiliária Federal interna — possui um estoque que ultrapassou R$ 9,3 trilhões no terceiro trimestre de 2024, refletindo tanto a necessidade de financiamento do déficit fiscal quanto a prática de rolagem contínua de títulos pelo Tesouro Nacional para pagar juros e refinanciar obrigações.
Essa dívida é emitida pelo governo em títulos públicos que são vendidos no mercado, e os bancos privados brasileiros são alguns dos principais detentores desses títulos. Inclusive está sendo uma das maiores fontes de crescimento e/ou manutenção dos juros estratosféricos!
Muito além do Tesouro Direto:
Dados públicos e relatórios de mercado mostram que instituições como o Itaú possuem uma parte expressiva de seus portfólios de títulos composta por dívida do governo.
Por exemplo, um relatório internacional de referência indicava que, em 2023, cerca de 57,8 % do portfólio de títulos do Itaú era composto por títulos públicos emitidos pelo governo brasileiro, representando uma grande parte de seus ativos negociáveis e de renda fixa.
Em outro dado histórico anterior, essa participação já havia sido estimada em mais de 44 % da carteira de valores mobiliários em 2010, o que demonstra a natureza estrutural dessa exposição.
E estes dados são da própria Comissão de Valores Mobiliários e
CompaniesMarketCap!!
A mecânica por trás dessa ligação entre lucro bancário e dívida pública envolve juros e spreads financeiros.
O governo, ao emitir títulos com juros definidos pela taxa básica de juros (Selic), gera uma oportunidade de ganho para instituições financeiras que compram esses títulos como forma de investimento ou gestão de liquidez.
Quando a Selic está elevada ou quando a rolagem da dívida torna-se intensiva — como foi observado nos últimos anos com taxas de juros persistentemente altas no Brasil — os bancos capturam diferenças entre o custo de captação e a renda gerada por esses títulos públicos.
Esse diferencial financeiramente positivo contribui para as principais fontes de receita dos bancos, especialmente para o resultado de juros líquidos, que é um componente central de seus lucros.
Além disso, a própria rolagem da dívida pública — processo em que o Tesouro emite novos títulos para pagar ou refinanciar os antigos — mantém um fluxo constante de títulos sendo transacionados no sistema financeiro.
Essa dinâmica favorece os bancos que atuam como grandes compradores e intermediadores desses papéis, criando um ambiente em que seus balanços capturam receitas financeiras estáveis e previsíveis, ainda que dependentes das condições macroeconômicas e da política fiscal do país.
Portanto, do ponto de vista técnico e conceitual, o lucro recorde do Itaú Unibanco está diretamente relacionado ao papel do governo como emissor central de dívida e à estrutura de financiamento do Estado brasileiro, que cria oportunidades de ganho consideráveis para bancos que detêm volumes substanciais de títulos públicos em suas carteiras.
Essa relação não se limita a empréstimos diretos, mas envolve títulos soberanos, rendas de juros associados à dívida pública, e mecanismos de rolagem que alimentam os resultados financeiros das instituições bancárias que participam intensamente desse mercado.
Em resumo, enquanto fatores como eficiência operacional e gestão de crédito explicam parte do sucesso do Itaú — e são importantes — a exposição ao mercado de dívida pública e a dependência das condições macroeconômicas que regem esse mercado (como taxa de juros e rolagem, gastos descontrolados e falta de gestão estatal da dívida) são elementos conceituais fundamentais para compreender a magnitude do lucro do banco em relação ao governo brasileiro e ao funcionamento do sistema financeiro nacional.
Em suma, o governo gasta mais do que pode, e os bancos ganham mais do que estimavam com isso.
Por: Marco Bassi

