Artigo News Brasil 4 min de leitura

A Europa, que já foi motor econômico e centro de decisões globais, vem perdendo protagonismo

A Europa, que já foi motor econômico e centro de decisões globais, vem perdendo protagonismo econômico e geopolítico nas últimas décadas, e os números recentes ajudam a entender como políticas “progressistas” acabaram aprofundando esse processo. A indústria europeia, por exemplo, encolheu de forma consistente: em 2024, o valor da produção da indústria de transformação da União Europeia caiu 2% em relação a 2023, depois de já ter recuado 1,4% no ano anterior, segundo o Eurostat. Setores-chave como veículos e equipamentos de transporte registraram queda de 6,4%, e equipamentos elétricos caíram 8,6%. Em abril de 2025, a produção industrial da UE teve nova contração, de 1,8% em relação a março, enquanto na zona do euro a queda foi de 2,4% no mesmo período, de acordo com dados da IndexBox. Esse declínio industrial está diretamente ligado aos custos de energia e à rigidez regulatória que sufocam a competitividade.

Os preços de eletricidade e gás, pilares para qualquer economia industrial, seguem entre os mais caros do mundo. Em janeiro de 2025, o preço residencial médio da eletricidade na UE era de 25,5 cent€/kWh, chegando a absurdos 40,4 cent€/kWh em Berlim, segundo a Euronews. Ao mesmo tempo, embora o preço do gás natural tenha recuado no mercado internacional, a carga de impostos e encargos na Europa fez a conta final aumentar: em 2024, a participação de tributos na conta de eletricidade saltou de 18,5% para 24,3%, de acordo com a EU Reporter. Esse cenário de energia cara não só afasta investimentos industriais como provoca desindustrialização acelerada, especialmente na Alemanha, antes motor de toda a União.

Outro fator crítico é a demografia. Em 2024, a população total da UE chegou a 450,4 milhões de pessoas, mas esse aumento se deveu exclusivamente à migração líquida, já que o saldo natural foi negativo em 1,3 milhão de pessoas, com 4,82 milhões de mortes contra apenas 3,56 milhões de nascimentos, segundo a Reuters. A idade média dos europeus já passa de 44 anos, alcançando 46 anos em países como Itália, Grécia e Portugal, conforme dados da Eurostat divulgados pelo Schengen Visa Info. Esse envelhecimento pressiona sistemas de previdência e saúde, ao mesmo tempo em que reduz a força de trabalho ativa, criando um peso estrutural que mina o dinamismo econômico.

No campo geopolítico, a dependência externa de energia expõe ainda mais as fragilidades. Após a crise com a Rússia, a União Europeia ampliou de forma massiva a importação de gás liquefeito e petróleo de países terceiros, sobretudo dos Estados Unidos. Só que o custo é alto e as metas de gastar cerca de 250 bilhões de dólares por ano em energia americana foram classificadas como “irrealistas” por analistas do setor, conforme reportou a Reuters em julho de 2025. Ao mesmo tempo, a transição energética rígida, sem equilíbrio com competitividade, impôs encargos adicionais às empresas e deixou a Europa cada vez mais vulnerável ao jogo das grandes potências — EUA, China e Índia — que combinam pragmatismo econômico com visão estratégica.

Esses dados mostram de forma clara como políticas voltadas quase exclusivamente para regulação, redistribuição social e metas ambientais ambiciosas, sem uma visão realista dos impactos, acabaram penalizando a Europa. O continente, que já foi líder global, hoje é mais um mercado consumidor e um campo de influência de potências externas, sem capacidade de definir agendas próprias de peso. Para recuperar protagonismo, seria necessário redesenhar a transição energética de forma mais realista, reduzir a burocracia e a carga tributária, investir pesado em inovação tecnológica e enfrentar de frente o desafio demográfico. Caso contrário, a Europa seguirá sendo lembrada mais pelo seu passado de liderança do que pelo seu presente ou futuro.

Marco Aurélio Bassi