Juro cobra a conta: um quarto das empresas na Bolsa não paga nem os juros da dívida
O custo do dinheiro no Brasil voltou a expor a fragilidade financeira de boa parte das companhias de capital aberto. De acordo com Ricardo Knoepfelmacher, sócio-fundador da RK Partners e um dos nomes mais conhecidos do mercado brasileiro em reestruturações empresariais, cerca de 25% das empresas listadas na Bolsa hoje não geram caixa suficiente sequer para cobrir os juros de suas dívidas — quanto mais para amortizar o principal.
Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o especialista traçou um diagnóstico duro sobre o nível de alavancagem do setor corporativo brasileiro. Segundo ele, empresas com relação dívida líquida/Ebitda acima de 2,5 vezes já podem ser consideradas excessivamente endividadas no atual patamar de juros — a não ser que estejam em forte trajetória de crescimento ou operem em setores particularmente favorecidos pelo ciclo econômico atual. Fora dessas exceções, esse nível de alavancagem tende a se tornar insustentável quando a Selic permanece elevada por um período prolongado.
Dívida acumulada encontra juros altos
Para Ricardo K., o momento atual não é fruto de um único fator isolado, mas da combinação de pelo menos três forças: problemas estruturais de determinados setores, dificuldades específicas de cada segmento da economia e, por cima disso tudo, um estoque de dívida que já vinha se acumulando nos balanços corporativos há anos. Quando essas dívidas foram contratadas, muitas vezes em condições de juros mais baixos, o cenário era outro. Com a Selic em patamar elevado por um tempo mais longo do que o mercado esperava, o custo do refinanciamento explodiu e passou a corroer a geração de caixa de empresas que já operavam no limite.
O executivo também chama atenção para riscos específicos em infraestrutura, setor historicamente intensivo em capital e dependente de dívida de longo prazo, onde ele prevê o surgimento de novos casos de estresse financeiro. Além disso, aponta preocupação com instrumentos de crédito estruturado como Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais) e Fidcs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), que cresceram rapidamente nos últimos anos e podem concentrar riscos ainda pouco visíveis para o mercado.
Recuperações judiciais devem continuar em alta
Olhando para frente, Ricardo K. projeta um cenário de dois movimentos simultâneos: um crescimento acentuado das recuperações extrajudiciais — processo mais rápido e menos custoso de renegociação de dívidas, feito diretamente entre empresa e credores — e a manutenção das recuperações judiciais em nível elevado por mais um ano a um ano e meio. Na visão do especialista, esse quadro só deve começar a se reverter de forma mais consistente quando os juros caírem de maneira significativa.
Ele é específico sobre o que seria um patamar confortável para as empresas: um juro real abaixo de 5% ao ano. Enquanto a taxa real permanecer acima desse nível, o ambiente para empresas endividadas continuará hostil, com pressão crescente sobre companhias que não conseguem gerar caixa operacional suficiente para honrar seus compromissos financeiros.
O que isso significa para o mercado
O diagnóstico de Ricardo K. reforça um alerta que vem se espalhando entre analistas e investidores: mesmo com o mercado de ações em recuperação em determinados setores, a saúde financeira de uma fatia relevante das empresas listadas continua frágil. Para investidores, o recado é claro — a análise da alavancagem e da capacidade de geração de caixa das companhias se torna ainda mais crucial em um ambiente de juros estruturalmente altos, e o número de reestruturações no mercado brasileiro deve seguir aquecido nos próximos trimestres.
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