CIMED News Brasil 3 min de leitura

Em defesa da CIMED

Ou melhor: em defesa de uma leitura menos rasa. Porque não estou dizendo que está tudo bem. Estou dizendo que a crítica dominante está errada nos motivos.

O mercado olhou o resultado de 2025 e viu lucro líquido caindo 25%. A reação foi imediata. Mas a leitura rápida esconde mais do que revela.

A receita líquida consolidada cresceu 12,5% em um ano em que o setor desacelerou quase 30% sua taxa de crescimento. A Cimed cresceu o dobro do mercado. Ganhou share em 72% das super marcas. Chegou a 6 em cada 10 lares brasileiros.

Pode ser que nada disso se converta em valor de longo prazo. Mas chamar isso de deterioração é, no mínimo, preguiça analítica.

Antes de defender, vale fazer a pergunta certa: de onde veio esse crescimento? Quanto veio de clientes existentes vs. novos? Quanto veio de categorias novas vs. genéricos?

Sem essa decomposição, ninguém sabe se a empresa está crescendo de forma saudável ou comprando receita. E como a Cimed é fechada, ninguém tem essa informação. O mercado está opinando sem o dado que mais importa. Eu inclusive.

Dito isso, o ponto cego mais relevante da análise é outro.

Existe uma confusão recorrente entre investimento e CapEx. Quando a empresa gasta R$110 milhões expandindo planta, isso aparece no balanço como ativo. Ninguém questiona.

Mas quando gasta R$183 milhões em marketing (alta de 41%), absorve o impacto de implementar um SAP no Q1 ou investe R$96 milhões em intangível em andamento, nada disso capitaliza. Vai direto pro P&L. Some.

Não deixa de ser investimento. O custo aparece hoje. O retorno, se vier, vem nos ciclos seguintes. Tratar tudo como despesa corrente e comparar com o lucro do ano anterior é contabilidade, não análise.

Há uma mudança estrutural que ninguém discute. A CIMED está saindo de um modelo de recompra quase automática (genéricos, prescrição) para um onde cada venda precisa ser conquistada (beleza, oral care, consumo).

No primeiro, o cliente fica até sair. No segundo, ele sai até voltar. A economia unitária muda. A forma de avaliar o negócio muda.

Se o marketing é aquisição de clientes em categorias novas, o P&L vai parecer terrível nos primeiros ciclos por definição. Não necessariamente porque o investimento é ruim, mas porque o retorno ainda não maturou.

Sim, a margem comprimiu. O câmbio machucou, a capacidade fabril bateu no teto e o CDI a 14,9% tornou a despesa financeira brutal. O FCF operacional ficou negativo. A dívida líquida subiu.

Nada disso é irrelevante. E pode ser que parte relevante desses investimentos não se pague. Esse risco existe e é real.

Repito: não estou dizendo que está tudo bem. A margem comprimiu, o caixa queimou e a dívida subiu. O risco é real.

Mas a leitura está rasa. Confunde investimento (em sentido amplo) com despesa, ignora o que não capitaliza, não discute a mudança de modelo e trata um único exercício como veredito.

São muitos pontos cegos para tanta certeza.

Eu reconheço o que não sei. A questão é se quem está criticando reconhece também.

Rodrigo Fernandes