CARTA ABERTA A FINEP
Meu nome é Henrique Klein Neto, sou CIO da Biont Biotecnologia e, desde dezembro de 2022, aguardamos a abertura editais com oportunidades na área de desenvolvimento em biotecnologia nas quais nossa empresa tenha condições reais de ser habilitada. A realidade, porém, é que os editais acessíveis a startups em estágio inicial são raros, e, quando existem, normalmente oferecem recursos muito baixos para a complexidade, o tempo e o custo inerentes ao desenvolvimento biotecnológico.
Por outro lado, os poucos editais com recursos mais relevantes costumam impor critérios de habilitação extremamente difíceis para empresas emergentes, especialmente exigências ligadas à comprovação de faturamento e contrapartida, estrutura prévia consolidada ou histórico comercial robusto. Na prática, isso faz com que startups de base científica, que ainda estão justamente na fase de transformar conhecimento em produto, encontrem barreiras quase intransponíveis para acessar o fomento.
O resultado é um cenário desequilibrado: pequenas empresas inovadoras, ainda em fase inicial, acabam disputando recursos públicos de inovação com grandes e afortunadas farmacêuticas, organizações que, por sua própria estrutura, faturamento e capacidade de capitalização, já possuem plenas condições de financiar internamente boa parte de suas pesquisas. Com isso, o recurso que deveria impulsionar o nascimento da inovação frequentemente acaba reforçando a posição de quem já está consolidado.
Essa lógica produz um efeito preocupante. O financiamento público, que deveria servir como instrumento de correção de assimetrias e estímulo à inovação nascente, muitas vezes termina reproduzindo a concentração de oportunidades. Exigir de uma startup o mesmo nível de robustez financeira de uma grande companhia para acessar fomento à inovação é, na prática, impedir que novas soluções tecnológicas tenham a chance de sair do papel.
Na biotecnologia, esse problema se torna ainda mais grave. Trata-se de um setor intensivo em ciência, com ciclos longos de maturação, alta complexidade regulatória e necessidade contínua de investimento antes mesmo da geração de receita. Exigir faturamento relevante de quem ainda está construindo a base científica e tecnológica da solução equivale a afastar justamente os atores que mais precisam do apoio público para avançar.
Gostaria também de deixar muito claro que esta reflexão não é uma crítica aos excelentes profissionais da FINEP. Pelo contrário, torço sinceramente para que um dia a minha empresa tenha a oportunidade de acessar recursos dessa instituição, cuja importância para o desenvolvimento nacional é inegável. O ponto aqui não é desmerecer a FINEP, mas contribuir para um debate necessário sobre a arquitetura dos mecanismos de financiamento à inovação no Brasil.
Henrique Klein
