A entrada agressiva da BYD no mercado brasileiro reacende um debate
A entrada agressiva da BYD no mercado brasileiro reacende um debate que vai muito além da simples concorrência entre montadoras.
Estamos falando do futuro da indústria automotiva nacional.
O Brasil levou mais de seis décadas para estruturar um dos maiores parques automotivos do mundo.
Montadoras como Volkswagen do Brasil, General Motors, Stellantis, Toyota Motor Corporation e Hyundai Motor Company investiram bilhões no país, criando uma cadeia produtiva complexa que envolve milhares de fornecedores, centros de engenharia e mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos.
Agora surge um novo modelo competitivo.
A estratégia de muitas empresas chinesas é clara: primeiro inundar o mercado com veículos importados de grande escala e preços agressivos.
Depois, instalar plantas de montagem local com alto nível de componentes importados.
Do ponto de vista empresarial, é uma estratégia eficiente.
Do ponto de vista industrial, o risco é outro.
Quando veículos chegam prontos ou semi desmontados, ocorre um fenômeno conhecido na economia como desintegração da cadeia produtiva.
Autopeças deixam de ser fabricadas localmente, fornecedores perdem escala, engenharia nacional perde relevância e empregos qualificados começam a desaparecer.
Esse processo não acontece de forma abrupta.
Ele ocorre silenciosamente.
Primeiro diminuem os pedidos das autopeças.
Depois surgem cortes nas linhas de produção.
Em seguida vêm as decisões globais de realocação de investimentos.
Outro ponto crítico é o desequilíbrio competitivo.
Fabricantes chineses operam com forte apoio estatal, acesso a crédito subsidiado e escala industrial gigantesca.
Já as montadoras instaladas no Brasil enfrentam o conhecido Custo Brasil: carga tributária elevada, logística cara, juros altos e insegurança regulatória.
Não se trata de barrar inovação nem impedir a chegada de veículos elétricos.
A transição energética é inevitável.
A pergunta estratégica é outra:
O Brasil quer ser apenas um mercado consumidor de carros importados ou continuará sendo um país produtor de tecnologia, engenharia e indústria?
Desmontar uma cadeia industrial leva poucos anos.
Reconstruí-la pode levar gerações.
Carlos Alberto Tavares Ferreira

